Há nesse coração que vos fala qualquer coisa que ama e odeia e respira. Há uma fera aprisionada que pode se libertar a qualquer momento, a uma sede insaciável de morte ou de vida ou de nada, mas uma sede que nunca sacia. Há nesse corpo que carrego os danos putrificados das noites de boemia. Há um ser que sonha e isso é tudo que lhe resta. Há qualquer coisa dentro de mim querendo ser humano e não podendo. Há um rosto belo e deformado esquecido dentro de uma máscara maldita. Não vejo uma gritante diferença entre o que grita e o que cala. Entre o que se nega e o que acredita.
Só ouço uma voz dentro de mim que não fala a minha língua. Dentro do meu oco, todo barulho é eco. Toda semente que caiu no meu jardim apodreceu, minha terra é mais seca que deserto. Cada felicidade que tive no vento se esvaiu, e da alegria que um dia já fez sentido só restou o lamento de um sorriso falso e amarelo. Mesmo sozinho forcei meu choro para convencer a mim mesmo que sentia aquilo que não sentia. E constatando que não pude nem ao menos acreditar na minha própria mentira, tive que aceitar que mim era eu mesmo. Sou o patinho feio rejeitado até pelos cisnes. Sou a tempestade profunda repleta de tormento. Sou o que não foi amado por cristo.Sou o pecado inerente, sou o castigo, o não que não cede o perdão. Sete pecados para mim é pouco. Sou o errado e o torto. Sou o prólogo que anuncia a tragédia.
Sou seu filho pródigo abortado.
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